Ministro demitido do Turismo diz que saiu por divergência e porque se excedeu ao atacar colega

Por Pedro Henrique Gomes, G1

Demitido nessa quarta-feira (9), o ministro Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, disse que saiu do governo em razão de uma divergência e que se excedeu ao afirmar no grupo dos ministros em um aplicativo de mensagens que o colega Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) é um "traíra" por supostamente ter pedido a demissão dele ao presidente Jair Bolsonaro.

Vídeo obtido pelo G1 registra o discurso feito por Marcelo Álvaro Antônio a funcionários da pasta na noite desta quarta, durante confraternização com servidores do ministério em um bar em Brasília. A confraternização seria para comemorar o final do ano, mas se converteu em despedida de Álvaro Antônio. O local da festa é fechado, e a maioria dos presentes não usava máscaras de proteção contra o coronavírus.

Bolsonaro anunciou a mudança no comando do Ministério do Turismo a apoiadores na entrada da residência oficial do Palácio da Alvorada nesta quarta (9). Segundo o presidente, o atual presidente da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), Gilson Machado, será o novo ministro. A exoneração do atual ministro e a nomeação de Machado foram publicadas na madrugada desta quinta (10) no "Diário Oficial".

"Eu espero que todos vocês fiquem no Ministério do Turismo. Mas eu não estou saindo por incompetência, não estou saindo por escândalo. Eu só estou saindo porque eu tive uma certa divergência com um ministro e me excedi em algum momento também na minha fala, reconheço", afirmou Álvaro Antônio.

O ex-ministro disse que sai "de cabeça erguida" e "com a sensação de dever cumprido".

"Nós fizemos o melhor para o turismo brasileiro e conseguimos contribuir com a economia do Brasil", disse.

No discurso, Álvaro Antônio afirmou que mesmo fora da pasta continuará leal ao presidente Jair Bolsonaro. Ele agradeceu ao presidente a oportunidade de comandar o Ministério do Turismo.

Álvaro Antônio assumiu o posto em janeiro de 2019, logo após a posse de Jair Bolsonaro. O ministro deixa a cadeira após quase dois anos à frente da pasta.

Ataque a Ramos

O ministro Marcelo Álvaro Antônio escreveu em um grupo de aplicativo de mensagens formado por ministros do governo que o colega Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, pediu a demissão dele ao presidente Jair Bolsonaro.

Na mensagem, Álvaro Antônio chamou Ramos de "traíra" e afirmou que este pediu a Bolsonaro para demiti-lo a fim de entregar o cargo para o Centrão, o bloco parlamentar de apoio ao governo na Câmara. Ramos é o responsável pela articulação política do governo com o Congresso.

"Não me admira o Sr Ministro Ramos ir ao PR pedir minha cabeça, a entrega do Ministério do Turismo ao Centrão para obter êxito na eleição da Câmara dos Deputados", escreveu Álvaro Antônio.

Com o apoio do governo, o Centrão lançou a candidatura do líder do bloco, deputado Arthur Lira (PP-AL), à presidência da Câmara, para a sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ), cujo grupo também deve lançar uma candidatura.

Álvaro Antônio, que é deputado federal pelo PSL de Minas Gerais, afirmou que, com as concessões ao Centrão, o governo paga um preço "nunca visto antes na história" para a aprovação de matérias na Câmara.

"Ministro Ramos, o Sr entra na sala do PR comemorando algumas aprovações insignificantes no Congresso, mas não diz o ALTÍSSIMO PREÇO que tem custado, conheço de parlamento, o nosso governo paga um preço de aprovações de matérias NUNCA VISTO ANTES NA HISTÓRIA, e ainda assim (na minha avaliação), não temos uma base sólida no Congresso Nacional, (tanto que o Sr pede minha cabeça pra tentar resolver as eleições do parlamento, ironia, pede minha cabeça pra suprir sua própria deficiência)...", disse.

Na mensagem, Álvaro Antônio insinuou que o ministro Ramos "não tem capacidade" para ocupar a função que exerce.

"Nem por isso Ministro Ramos, fui ao PR pra dizer que o Sr não capacidade pra atuar em tal função, AO CONTRÁRIO, várias vezes ofereci ajuda pra que o Sr tivesse êxito em suas atribuições (ex: Contratação do Carlos Henrique, abrindo espaços no MTur)", escreveu.

Candidaturas laranjas

Marcelo Álvaro Antônio esteve envolvido no escândalo das candidaturas laranjas em Minas Gerais na campanha eleitoral de 2018. Na época, ele era o presidente estadual no PSL.

O Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais denunciou Álvaro Antônio e outras dez pessoas sob acusações de crimes envolvendo essas candidaturas.

Mesmo após o ministro ter sido indiciado em inquérito pela Polícia Federal e denunciado pelo MP, o presidente decidiu mantê-lo no governo.

Saindo do Ministério do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio deve reassumir o mandato na Câmara dos Deputados.

O político chegou a cumprir um mandato inteiro como deputado federal enquanto filiado ao PMB e ao PR, entre 2015 e 2018, antes de ser escolhido ministro.