Em eleição marcada pela Covid-19, país tem maior abstenção desde 1996

A eleição deste ano ficará registrada como o pleito com maior número de abstenção da História. Dados preliminares do TSE mostram que a quantidade de eleitores que não compareceram já é o maior ao menos desde 1996.

Com pouco mais de 90% das urnas apuradas, o total de brasileiros que não votaram atingiu 23,48%, acima do registrado em 1996, de 18,3%. São, ao todo, pouco mais de 31 milhões de eleitores que não optaram por um candidato a vereador ou prefeito. Em 2016, 17,58% não compareceram, o equivalente a 25,3 milhões de eleitores.

O crescimento da abstenção já era aguardado por cientistas políticos e técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em virtude das limitações de mobilidade causadas pela pandemia de Covid-19. O presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, chegou a afirmar que a abstenção poderia chegar a 30%.

Em todas as 25 capitais com eleição neste domingo, houve crescimento da abstenção na comparação com 2016. Porto Alegre teve a maior taxa entre estas cidades. Na capital gaúcha, 33% dos eleitores não foram às urnas.

Quando consideradas as cidades com mais de 200 mil habitantes, a taxa é 26,4%, enquanto nas cidades do interior abaixo de 10 mil, atingiu 15,29%. Historicamente, a abstenção tem sido maior nas grandes cidades, acima de 500 mil habitantes.

Crescimento no Rio e em SP

No Rio, a abstenção atingiu 32,79% do eleitorado da cidade, segunda maior taxa do país. É o maior percentual nos 20 últimos anos na cidade em que não votar é uma marca na comparação nacional. Em São Paulo, o percentual passou de 21,8% para 29,2%.

Mais de 1,5 milhão de eleitores cariocas deixaram de comparecer em uma das seções eleitorais espalhadas pelas 49 zonas eleitorais da cidade. O número é maior do que o registrado por Eduardo Paes (DEM), que obteve pouco mais de 974 mil votos.

Pela cidade, o percentual não foi homogêneo. Enquanto a 5ª Zona Eleitoral, responsável por seções em Copacabana e Leme, na Zona Sul, o percentual de pessoas que se abstiveram de votar chegou a 44%. De acordo com dados do TSE, são nessas localidades onde há uma maior presença de idosos no eleitorado. Já o menor percentual foi registrado na Zona Norte, na 167ª Zona Eleitoral, responsável por Anchieta, Costa Barros, Pavuna e Ricardo de Albuquerque, atingiu 20,55%.

Em algumas cidades onde as pesquisas de intenção de voto apontavam uma larga vantagem para determinado candidato, houve aumento substancial no não comparecimento. Em Curitiba, onde o prefeito Rafael Greca (DEM) foi reeleito, a abstenção atingiu 30,1%, praticamente o dobro do registrado em 2016, quando 16,4% dos curitibanos não compareceram às urnas.

Em Florianópolis, a abstenção também foi alta: chegou a 28,65% do total de votantes. Em 2016, esse percentual foi de 12,25%. Nas pesquisas, o atual prefeito Gean Loureiro (DEM) sempre indicou que ganharia com facilidade.

O mesmo foi registrado em Campo Grande, onde o atual prefeito Marquinhos Trad (PSD) venceu em primeiro turno com 52% dos votos válidos. Na capital do Mato Grosso do Sul, 25,14% do eleitorado não compareceu — 5,9 pontos acima do registrado quatro anos atrás, quando 19% não votou.

Em Teresina (PI), a abstenção ficou em de 20% do total de eleitores, com 100% das urnas apuradas. Em 2016, o não comparecimento foi de 11% na capital do Piauí. Em Aracaju (SE), o recorde de abstenção se repetiu., com 25% deixando de comparecer. Até então, o maior percentual havia sido registrado em 2016, com 18%.

Em Belém (PA), onde haverá disputa de segundo turno entre Edmilson (PSOL) e o Delegado Eguchi (Patriota), 20,7% do eleitorado não compareceu. O percentual é similar ao registrado no último pleito, quando 19% dos eleitores abstiveram de votar.

Pelo interior, o inverso à tendência também foi registrado. Em Lajeado Grande, em Santa Catarina, o percentual de eleitores que não votou atingiu 3,79%. Em 2016, o índice foi de 5,51%. Em Canitar, no interior de São Paulo, o mesmo fenômeno foi registrado. Em 2020, 13,7% dos eleitores não compareceram às urnas. O percentual é menor do que o registrado em 2016, quando 15,7% dos eleitores se abstiveram de votar.

Este ano, um facilitador para uma maior abstenção foi a possibilidade de justificar o voto a partir do aplicativo do TSE, o ‘e-Título’.

Barroso comemora abstenção inferior a 25% em meio a pandemia

Com quase todos os votos apurados, a abstenção na eleição municipal deste ano está em torno de 23%. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, comemorou o resultado. Mais cedo ele havia estimado que, em razão da pandemia de covid-19, o índice ficaria entre 30% e 35%. Ele também já tinha dito que a média histórica é de 20%.

— Gostaria de registrar, retificando informação, os níveis de abstenção foram inferiores a 25%. Em plena pandemia tivemos um nível pouca coisa superior a eleições passadas. Queira cumprimentar de coração o eleitorado brasileiro, que compareceu em massa, apesar das circunstâncias — disse Barroso.

Juliana Dal Piva, Marlen Couto e Pedro Capetti